RSS
  Whatsapp

Prisão de Elvin: entre o Pacto e a Lenda urbana da Segurança Pública do Piauí

Compartilhar

 

Floriano assistiu ao desfecho de uma cachaça que durou meses. Elvin, sujeito que ostenta no currículo a bagatela de 12 inquéritos e 23 processos judiciais, é o nosso Lázaro Barbosa. Ambos têm em comum a capacidade inacreditável de driblar o cerco do Estado, enquanto o imaginário popular faz o que sabe fazer de melhor quando as instituições falham: preenche o vácuo com superstição e misticismo.

Assim como aconteceu com Lázaro, Elvin deixou de ser apenas um foragido da Justiça para alçar o status de lenda urbana local. Nos grupos de mensagens e nas conversas de calçada, já se diz abertamente que a polícia não o encontrava porque o criminoso dominaria a famigerada Oração de São Cipriano para ficar invisível aos olhos das patrulhas. Outros garantem, com a firmeza dos ingênuos, que o homem tem pacto firmado com o próprio Belzebu. É a clássica fuga da realidade: para uma população cansada de promessas, é mais fácil aceitar que o bandido possui poderes diabólicos de ocultação do que admitir as profundas e mundanas falhas do nosso sistema de segurança.

A ironia da situação, contudo, não para na mística popular. O maior pesadelo da sociedade nem sequer é o tempo que se leva para fechar o cerco ao fugitivo. O verdadeiro desânimo coletivo reside na certeza matemática de que, assim como as algemas finalmente estalaram em seus pulsos, o tempo de permanência de Elvin atrás das grades será tragicamente curto. A população já sabe de cor o script das leis penais brasileiras: após uma megaoperação, dezenas de viaturas e um dispêndio financeiro colossal, as brechas jurídicas e a benevolência das progressões de pena cuidarão de devolvê-lo às ruas em tempo recorde.

Mas é preciso reconhecer o esforço braçal da polícia. Homens e mulheres fardados entram na mata, cruzam madrugadas, arriscam a própria vida e colocam o peito à bala para caçar um indivíduo de altíssima periculosidade. O heroísmo individual dos agentes é indiscutível. No entanto, o romantismo para por aí.

Essa mesma polícia, cobrada pela sociedade e pressionada pela mídia por resultados imediatos, atua amargando o pior salário do Brasil. É a matemática perversa do serviço público: exige-se eficiência de primeiro mundo, tecnologia de ponta e faro investigativo infalível de profissionais que recebem remunerações ridículas e trabalham, muitas vezes, no limite do esgotamento físico e estrutural. Não vou nem falar no sucateamento das condições de trabalho que cobram seu preço direto na eficácia das operações. Não há oração de São Cipriano que supere a falta de investimento contínuo, inteligência e valorização humana.

Enquanto a segurança pública for tratada na base do improviso e da desvalorização de quem arrisca a vida na ponta, continuaremos a fabricar "supervilões". Elvin não é invisível, não voa e tampouco tem pacto com entidades das trevas. Sua única "mágica" é se beneficiar de uma estrutura de estado enfraquecida na base salarial e de um sistema penal projetado para garantir a impunidade. Atribuir sua fuga ao diabo é apenas uma forma trágica de ironizar a nossa própria incapacidade institucional.

Mais de Opinião